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Renascendo – Cap. 39 Pt. 1

      Augusto estava quase o tempo todo calado.

      Participava das conversas, mas tinha passado por sua cabeça que a irmã de Mônica logo estaria por ali e com ela, muito provavelmente, Geraldo. Seu primo seria pego de surpresa pela presença de Helena, e também pela dos sobrinhos, e toda a situação talvez não tivesse maiores conseqüências, pelo menos naquele momento.

      Mas ele não podia deixar de se preocupar com a idéia de algum possível confronto entre Geraldo e Virgínia, ou até mesmo entre Geraldo e seus pais, e com ele mesmo, e com Elise.

      Pensando mais naquilo do que em qualquer outra coisa, ficou cuidando a entrada da casa, de uma janela, afastando as cortinas ligeiramente, com a desculpa de que esperava pelas pizzas.

      Não saiu dali nem mesmo quando Miranda finalmente veio da cozinha para a sala.

      E quando os motoboys chegaram, ele viu o outro homem se aproximar. Ficou quieto, observando, mas logo percebeu que alguma coisa estava errada.

      – Ernesto, venha ver uma coisa. – falou, discretamente.

      – O que foi? – Ernesto se aproximou.

      – Bom, os motoqueiros chegaram, mas aí encostou um cara neles, e estão parece que numa discussão…

      Ernesto olhou pela janela e imediatamente entendeu o que acontecia.

      – Meu Deus… – murmurou, e seus olhos voltaram-se para Miranda.

      Virgínia estava prestando atenção aos dois, e também se aproximou.

      – O que houve, Ernesto? – indagou.

      – Márcio está lá fora. Deve estar querendo aproveitar a entrega para entrar na casa.

      – Então vamos chamar a Polícia. – disse ela, procurando o telefone.  

      Seu gesto alertou a todos, e Miranda logo tomou ciência do que acontecia.

      – Você está vendo o quê, aí, Augusto? – indagou ela.

      – Não tenho certeza. – ele tornou a afastar um pouco a cortina. – Aquilo que ele tem na mão…

      – É um revólver, sim.

      – Ele vai forçar a entrada na casa. – disse Miranda. – É atrás de mim que ele está.

      Roberto praticamente ordenou a Helena que fosse para junto das crianças todas. Se possível, que as isolasse numa peça dos fundos. Ela atendeu imediatamente.

      Virgínia não estava conseguindo contatar a Polícia. O telefone dava sinal de ocupado.

      Para Augusto a coisa pareceu ficar ainda pior, quando ele viu o carro de seu primo estacionar ao lado das motos.

      – Agora complicou. – falou ele. – Marjorie e Geraldo chegaram. 

      – Meu Deus… – murmurou Mônica, lembrando que sua irmã sempre carregava uma arma na bolsa. – Tomara que ela não tente bancar a heroína…

      Virgínia começava a entrar em pânico. Largou o aparelho de telefone.

      – Não vou conseguir. – disse.

      Ernesto pegou o aparelho.

      – Eu vou lá fora. – disse Miranda.

      – O quê? Está maluca? – o protesto foi de Mônica.

      – Olhe… – Miranda a olhou, tensa – Estou morta de medo… Estou gelada… Mas tem dois inocentes, lá fora… tem crianças aqui dentro…

      – Lá fora você não vai. – disse Ernesto.

      – Vou. Vou, sim. É a mim que ele quer. Ele vai me escutar, e vocês terão mais tempo de chamar a Polícia.

      – Geraldo e Marjorie saíram do carro – informou Augusto. 

      Ernesto estava com esperanças de que o vizinho do outro lado da rua também estivesse tentando contatar a Polícia.

      Quando Miranda se encaminhou para a porta, Mônica e Virgínia colocaram-se à sua frente.

      – Por favor, não vá. – disse Mônica.

      – Eu preciso ir. – disse Miranda.

      – Isso é loucura. – argumentou Virgínia.

      – Loucura seria ele entrar na casa e nos fazer a todos de reféns. Temos que pensar nas crianças.

      Houve um instante de hesitação, quando Roberto se aproximou da porta, também.

      – Você acha que ele vai, mesmo, escutá-la? – indagou a Miranda.

      – Eu acho que sim…

      – Gente, começou a confusão, lá fora. -informou Augusto.

      Quase todos correram para a janela, ninguém a não ser Augusto podia ver alguma coisa muito bem, mas a distração geral deu a Miranda a brecha que ela precisava para abrir a porta de entrada. Estava disposta a tentar resolver a situação.

                         *                    *                    *

      Ninguém queria abrir a porta novamente.

      Augusto era o único a ainda estar na janela, olhando para fora, mas ele parecia mais paralisado do que outra coisa.

      Miranda tremia, chorando, abraçada a Virgínia.

      Alguns minutos se passaram, até que alguém viesse até a porta, e Augusto finalmente saiu de onde estava, para abri-la.

      Daniel e Roberto conversaram com o policial.

      As pizzas foram entregues, os motoboys liberados, e Marjorie e Geraldo finalmente puderam entrar na casa.

                            *                   *                    *

      A movimentação da Polícia, do Legista e da ambulância que recolheu o corpo de Márcio foi até tarde.

      Àquela altura, algumas pessoas estavam mais calmas, mas, mesmo assim, havia uma outra tensão no ar, que ninguém sabia ao certo o que fazer para aliviar.

      Ao ver sua irmã mais velha no interior da casa, Geraldo também tinha sido tomado por uma espécie de paralisia.

      Mas Helena estava preocupada com as crianças. Estava tarde, fora muita agitação, uma coisa a que não estavam acostumadas, e mesmo não tendo presenciado nada do que acontecera, ela achava que já estava na hora de irem embora.

      Marjorie estava com Geraldo, num canto da sala. Estava deixando que sua irmã, Virgínia, Ernesto e Augusto cuidassem de Miranda que, apesar de se sentir aliviada, ainda não esquecera o risco por que passara, para nem falar na idéia de que agora estava definitivamente sozinha com o filho.

      Ao perceber que Helena estava se preparando para ir embora, Marjorie disse ao namorado:

      – O que você está pensando, Geraldo?

      Ele olhou para ela meio atordoado.

      – Quer saber? Não sei se consigo conviver com essa coisa de você andar armada…

      – ‘Tá, mas e quanto à sua irmã?

      – Não quero pensar nisso agora. Estou apavorado, você não percebe?


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