RSS

Renascendo – Cap. 40 Pt. 1

      Ainda bem que eu não vi o que aconteceu… – murmurou Miranda. – Mas você viu… – ela olhou para Augusto.

      Ele percebeu os olhares de Mônica e Ernesto também em sua direção. Não sentiu vontade de falar.

      – Há alguma coisa que possamos fazer… ou dizer…? – continuou Miranda, sentindo-se estranhamente calma.

      Augusto continuou calado, limitando-se a balançar a cabeça.

      Mônica teve um pressentimento. Tocou o braço de Ernesto e fez um sinal para que saíssem do quarto. Ele concordou

      Miranda não os deteve.

      Depois que eles saíram, ela se aproximou de Augusto e pegou-lhe uma das mãos. Ele se deixou levar até a cama, onde ela o deitou e tirou-lhe os tênis.

      Em seguida, ela deitou ao lado dele e ficou olhando em seus olhos.

      Ficou pensando em si mesma, no que estava sentindo. Uma sensação de alívio, de liberdade, uma sensação de que estava pronta para recomeçar. Lá embaixo, seu filho provavelmente dormia, e ela se sentia muito segura. Segura sobre o que queria para si, e sobre seus sentimentos. E mesmo que não fosse correspondida, diria isso a ele.

      Quem primeiro falou foi ele:

      – Como você está?

      Ela sorriu levemente.

      – Preocupada.

      – É, eu… posso imaginar…

      – Pode?

      – Posso, sim… Agora é você e seu filho… o futuro… 

      – Hum… – ela balançou a cabeça. – Isso me preocupava antes… até algumas horas atrás… eu dizia que não, para que os outros não se preocupassem comigo…

      – Mas você estava…

      – Estava… muito. Havia a perspectiva de uma pessoa ficar me perseguindo… me ameaçando… ameaçando a quem estivesse comigo… ameaçando tomar meu filho…

      Augusto pensou, por instantes.

      – Agora não existe mais…

      – Mais nada… só eu, meu filho… o futuro…

      – Mas você ainda está preocupada…

      – Estou. Mas não com essas coisas…

      – Ah, é? Com o quê, então?

      – Com você, Augusto.

      – Eu? O que há para se preocupar comigo?

      Ela riu.

      – Bom… você acabou de testemunhar a morte de uma pessoa… Basta olhar para você para ver o quanto isso o afetou. 

      Augusto não respondeu em seguida. Miranda não estava totalmente certa, mas também não estava muito longe da verdade. 

      – É, acho que afetou. 

      – Acha que a imagem vai demorar para sair de sua mente? 

      Foi a vez de ele balançar a cabeça. 

      – É que não é tão simples… 

      – Me fale, então… estou aqui, com você, para que me fale… o que quiser…

      Ele manteve o sorriso, com os olhos abaixados. Espalmou a mão sobre a cama.

      – Foi uma cena muito forte, sabe?

      – Sei…

      – A gente nunca espera ver uma coisa assim…

      Ela segurou a mão dele com força. 

      – Mas o que eu vi… não sei… – ele olhou para ela, muito sério. – Mais de uma vez, de várias maneiras… fiquei com medo…

      Ele parou.

      Miranda sentiu um arrepio. 

      – Ficou com medo… 

      – De perder você. 

      Os olhos de ambos ficaram se encarando por segundos. 

      – Mas eu estou aqui, Augusto… 

      – Eu nunca senti isso antes, Miranda. Por ninguém. Até nem achava que sentiria isso por alguém…

      Nova pausa.

      – E o que foi que mudou? 

      – Não sei. Não sei se alguma coisa mudou. Tenho mais medo de não sentir isso de novo amanhã do que de tê-lo sentido hoje…

      – Quer dizer…

      – Se foi uma coisa de momento… se não foi… não sei… Para piorar, está certo, não gostei de ter presenciado… mas me senti aliviado… lembro de ter pensado que era um… empecilho a menos…

      – Acha que não deveria estar pensando assim?

      – Não sei. Eu não o conhecia. Para mim, ele era apenas alguém ameaçando você… eu queria o fim da ameaça… mas não podia fazer nada… nem fui capaz de tentar evitar que você fosse lá fora…

      – Mas você não poderia evitar… e não foi só você que não…

      – Mas eu queria.

      – Mas não devia. E eu estou feliz por não ter tentado…

      – Feliz?

      – É, estou feliz…

      – Mas como…?

      – Não sei se é só isso… mas você me respeitou… aceitou minha decisão…

      – Será…? Será só porque ainda não… temos nada? Só porque esta conversa ainda não tinha acontecido?

      Ela sacudiu os ombros.

      – Depende de que tipo de conversa estamos tendo agora. O que, exatamente, estamos dizendo um ao outro, agora, Augusto?

      – Diretamente… ainda nada…

      – E nem estamos certos sobre o que diremos… Não sabíamos se haveria esta conversa…

      – Eu queria… desde que voltamos da praia…

      – Mas esperou…

      – Não queria precipitar nada.

      – Não estava certo sobre seus sentimentos?

      – Não, e não sei se estou certo… Fiquei com muito medo de perder você… daquela maneira… mas nada impede que isso aconteça de outras formas… 

       – Está falando de eu… ir embora? Arrumar um emprego? 

      – É, eu… não posso sair daqui… Este lugar… eu amo… e as oportunidades…

      – Incrível saber que você tenha pensado nisso…

      Foi a vez dele rir.

      – Há uma imagem que me acompanha… que eu mesmo cultivei…

      – Talvez para se proteger…?

      – É… e no entanto… aqui estou, escancarando isso para você…

      – Assim como fez com Mônica?

      O silêncio pareceu prolongar-se por tempo demais, mas foi apenas uma impressão, para ambos.

      – Você está convicta de que houve alguma coisa entre nós, não é?

      – Estou. E mesmo que ambos neguem, eu sei que alguma coisa aconteceu. Mas também percebo que, o que quer que tenha havido, acabou.


Your Comment