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Sem Rumo Pt. 1

Primeiro trecho de um exemplo de diálogo que parte de coisa alguma vai a lugar nenhum, mas que eu gostei de ter escrito e gosto de ler.

Marisa estava sentada em uma sala da delegacia com dois sentimentos dentro de si, que ela não sabia como administrar.

Um era a raiva que sentia por perceber que estava implicada num roubo do qual não havia participado, e pior, estava sendo acusada por dois de seus primos, dos quais, aliás, nunca fora muito amiga. O outro era o fato de ter se apresentado para defendê-la , sem que ela tivesse solicitado, até porque não tinha como pagar, uma pessoa que ela nunca havia visto na vida, o que francamente a assustava. Com raiva e assustada, ela permaneceu calada, olhando para as próprias mãos espalmadas sobre a mesa, às vezes erguendo os olhos para o relógio de parede, como se estivesse à espera de alguém.

– O tempo está passando, Marisa. – falou o advogado. – Eles nos deram apenas dez minutos.

Ela olhou para ele. Era negro, jovem, provavelmente mais jovem do que ela.

– De onde você saiu? – perguntou ela.

– Do ventre da minha mãe. – disse ele, impaciente. – Mas antes de lhe contar a minha história preciso que me conte a sua. E o tempo está passando.

– Quem paga para você estar aqui? Não tem cara de defensor público.

–  E não sou. Quer que chame algum?

Ela ficou mais uma vez em breve silêncio.

– Como você se chama?

– Roberto.

– Sem doutor? – ela demonstrou surpresa.

– Não temos tempos tempo para perfumaria, Marisa. – foi a vez dele olhar para o relógio. – Seis minutos.

Ela imitou o gesto dele, olhando mais uma vez para o relógio. Depois disse:

– Eles estão me incriminando. Meus primos.

– Tem certeza?

– Absoluta. Eu não fiz nada, não tive nada a ver com o que aconteceu, e eles nem podem provar que tive.

– Tudo bem. Não temos mais muito tempo. O delegado vai voltar e tentar lhe interrogar. Você é inocente, portanto não tem que perder a calma e eu estarei aqui do seu lado. Quando não quiser responder a alguma determinada pergunta bata na mesa e eu falo por você.

– E o que você poderia falar? Mal me conhece.

– Deixe isso comigo.

A porta se abriu logo em seguida e a mesma pessoa que já estivera ali com ela entrou. Era um homem de mais de quarenta anos.

– Olá, advogado. – falou, cumprimentando Roberto.

– Olá, delegado. Como está a família?

– Todos bem, e a sua?

– Tranquilo.

– Ver você com esta jovem me tranquiliza. Parece que ela vai dizer a verdade.

– Assim espero.

– Então, vamos ao trabalho.

E a partir dali a atitude do policial mudou. Ele olhou para Marisa com ar severo e disse, abrindo uma pasta fina com uma ou duas folhas.

– Marisa Fernanda Freiberger Souza. Nascida em Porto Alegre, 31 de Março de 1984. Pai e mãe falecidos. Uma pesquisa nos sistemas diz que você tem carteira de habilitação para moto. Não tem cara de santa, mas também não tem passagem pela polícia. Vou lhe dizer uma coisa, mocinha. Nós falamos com seus primos. As acusações são graves. Não conheço a eles, nem a você. Mas aqui todos os dias falamos com bandidos, traficantes, usuários de drogas, cafetões, prostitutas, a gente vê de longe quando está diante de alguém que está mentindo. Entende o que eu quero dizer? Eu olho para você e mesmo que pareça não estar, não se iluda. Se mentir para mim, não vai conseguir me enganar por muito tempo. Eu vou saber. Ficou claro, isso, para você?

Marisa olhou para ele com o mesmo ar assustado que ele havia visto ali mesmo, naquela manhã, poucas horas antes, mas nada disse.

– Minha cliente reitera que nada teve a ver com o que aconteceu. – falou Roberto.

– Eu estou presa? – perguntou ela.

– Você está aqui na condição de suspeita, detida para averiguações, por causa das acusações de seus primos. – respondeu o delegado.

– Eles não têm prova alguma do que estão dizendo. – continuou ela. – Posso responder a qualquer pergunta, vamos acabar logo com isso. Posso ir embora, depois?

– Depende. Pretende acusar alguém sobre o roubo?

– Eu não. Não tenho a menor ideia de quem o cometeu. Sei que eu não fui.

– Não vai poder sair da cidade.

– Não pretendo fazer isso.

– Então ‘tá, vamos lá. Qual sua função na joalheria assaltada?

– Eu gerencio a loja.

– É irmã do dono.

– Sim. Eventualmente faço às vezes de secretária dele.

– Onde estava na noite de ontem?

– Em casa, com a minha sobrinha.

– Tem ideia de onde seu irmão e seus primos estavam?

Ela pensou um pouco.

– Eles sempre se reúnem em algum dia da semana, de noite, mas não tenho ideia do que fazem.

O delegado ficou pensativo por alguns segundos. Olhou para o advogado e disse:

– Posso falar com você um instante?

Roberto assentiu e ambos saíram da sala. Lá fora, o delegado perguntou:

– O que você acha?

– Ela não sabe nada sobre o que houve.

– Desconfiei disso. Vi de cara que tinha alguma coisa errada. Ela não tem jeito, mesmo, de quem está escondendo algo. Está assustada, mas ao mesmo tempo tranquila. Já os primos…

– Eu disse a ela que não perdesse a calma. Sendo inocente, não havia por quê.

– Vou liberá-la. Não tenho nada para segurá-la aqui, digamos, por enquanto. Você me conhece. Jamais faria isso se tivesse visto que ela estava mentindo. Não posso segurá-la aqui por mais tempo, mas preciso que não saia da cidade. 

– Eu acredito que ela não vai fugir. Tenho meios para evitar isso. Vocês já têm alguma ideia de quem possa ter feito isso?

– Não posso falar a respeito. Meu palpite é de que tivermos alguma novidade virá do lado dos primos dela, mas eu lhe diria o seguinte, acho que a vida dela está ameaçada. Não vamos causar pânico, ela não precisa saber de nada disso.

– Me diga a verdade, Cid. Porque está fazendo isso?

O delegado pensou um pouco:

– É pelo que eu disse lá dentro. A gente conhece, sabe quem tem potencial. É o jeito dela. Tem que ser muito boa atriz para conseguir esconder a culpa. Você não ficou com a impressão de que ela tem pavio curto?

– Mais ou menos. Não tive muito tempo.

– Pois eu lhe digo, meu amigo, ela tem. Uma pessoa com culpa no cartório não conseguiria esconder tão bem. Ela está dizendo a verdade. Mas há pessoas que a conhecem bem e estão jogando com a impaciência dela.

– Vou procurar mantê-la em segurança.

– Está bem. Pode levá-la.

Roberto não sabia bem o que fazer, quando voltou para a sala de interrogatório. Se o delegado tinha sensação de que ela corria perigo, como poderia deixá-la sair pela rua sozinha? E se o instinto do delegado estivesse certo?

Marisa olhou para ele com alguma ansiedade, ao vê-lo de volta.

– Vamos embora. – disse ele.

Ela se ergueu, mas ficou em posição defensiva, olhando-o com desconfiança.

– Venha, Marisa, vamos embora. Você está liberada.

– Você e este detetive são amigos, não é?

– Delegado. Pode considerar que sim, já nos encontramos outras vezes, temos uma história. – ele começou a rir.

Ele deixou que ela passasse pela porta, mas depois assimiu a dianteira.

– Você tem que assinar um documento que atesta que esteve aqui para depor. Mera formalidade. Não diga nada a ninguém, apenas assine. Espero você lá fora.

Quando ela saiu, não sabia o que fazer, mas também não tinha ninguém a quem recorrer. Não tinha para onde ir. Aproximou-se do advogado, que a esperava ao lado de um carro, falando ao celular. Teve certeza de que era dela que falava, porque, ao vê-la, encerrou a conversa em seguida.

– Falando com seu chefe? – perguntou.

– Ele não é meu chefe. Sou amigo do filho dele.

– E eu conheço este filho?

– Acho que não. Na verdade, o filho dele não tem nada a ver com o que está acontecendo.

Marisa ficou quieta por instantes. Depois disse:

– Eu não conheço você, mas preciso lhe dizer algumas coisas.

Ele ficou olhando para ela, à espera.

– Primeiro de tudo, obrigada.

– De nada.

– Segundo, esta situação, com este assalto e as acusações dos meus primos. Isso me assusta. Você ter aparecido do nada, estar me ajudando sendo pago por alguém que eu não sei quem é. Isso me assusta. Você e o delegado tendo uma conversa reservada e eu ser liberada logo em seguida…

– Por enquanto, foi o que ele disse.

– Pois é, por enquanto… Tudo isso me assusta. Estar aqui fora, sem ter para onde ir, me assusta ainda mais. Sabe o que todas estas situações têm em comum? Todas estão fora do meu controle. Me assustam porque não tenho a menor ideia de por que estão acontecendo.

Roberto olhou para o relógio. Eram 12:45. Ele fez a volta no carro e abriu a porta do seu lado. Baixou os vidros dos dois lados, largou a pasta no banco de trás e depois fez novamente a volta, para abrir a porta do carona. Marisa estava parada, de braços cruzados. Àquela altura já tinha percebido que o rapaz estava  preocupado com ela. Ele nunca a tinha visto e estava preocupado com ela. Entrou no carro e ficou à espera de que ele também entrasse.

Roberto olhou para ela e perguntou:

– Por que disse que não tem para onde ir?

– Eu moro, ou morava, na mesma casa que meu irmão.

– Foi onde a polícia encontrou você, hoje.

– Sim. Mas agora ele apóia os primos nessa palhaçada, então não posso voltar para lá. Como não tinha combinado nada com ninguém, não sei o que fazer. Teria que passar lá, pegar algumas coisas e procurar um bom banco de praça para passar o restante do dia, a noite, e assim por diante.

– Nenhuma amiga, nenhum outro parente…?

– Tenho uma prima. Irmã dos que me acusam. Não mora com eles, não a vejo faz tempo, não quero envolvê-la nisso. Acho que ela também não gostaria de se envolver, porque não apareceu aqui para me ver.

Roberto desviou o olhar dela para o outro lado, pensativo. As instruções que havia recebido do contratante foram bem claras: nada devia faltar a ela. As insinuações do delegado Acidino também haviam sido bem claras: ele achava que ela corria risco de morte.

Ele estava se preparando para por o carro em movimento quando percebeu pelo espelho retrovisor externo, do seu lado, que havia movimentação de imprensa em sua direção. Ainda pensando no que o delegado havia dito, decidiu usar o interesse da imprensa a favor de Marisa. Ligou o carro.

– Para onde estamos indo? – perguntou ela.

– Bom, não sei de você, mas eu estou com fome. Se não quiser comer, tudo bem, mas depois vamos para a casa do seu irmão pegar coisas suas.

– E depois?

– Vou pensar em algo.

– E depois?

– Depois, o quê?

– Depois que você pensar em algo?

– O que é que tem?

– O que vai acontecer?

– Não sei. Vou pensar em algo.

SEGUE


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  1. picida ribeiro #
    1

    Aguardo ansiosa o desenrolar da história…



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