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Sem Rumo Pt.2

Segundo trecho de um exemplo de diálogo que parte de coisa alguma vai a lugar nenhum, mas que eu gostei de ter escrito e gosto de ler.

 Roberto colocou o carro em movimento e disse a ela:

– Não perguntei, você está com fome?

Marisa olhou para ele, mais uma vez, e mais uma vez com um pouco de surpresa e disse que sim.

– Não tinha me dado conta, fiquei tão nervosa com tudo que aconteceu que nem lembrei de comer.

– ‘Tá, então vou levar você a um lugar, como disse antes.

– E depois vai pensar em algo. – disse ela, sacudindo a cabeça, com ar irônico.

– Bueno, depois nós vamos esperar. Há mais coisas que eu não posso lhe dizer. Assumi um compromisso com o delegado no sentido de que você não vai fugir, não vai sair da cidade.

– E eu tenho cara de fugitiva?

– Não. Você tem cara de assustada. A pessoa assustada teme por sua segurança, a tendência é de que tente se proteger. Muitos equacionam isso tentando fugir, se esconder.

– Mas eu não quero fugir. Quero resolver esse negócio. Não sei como, mas preciso resolver isso.

– E eu vou estar do seu lado para ajudar.

– E por que vai fazer isso? Quem o está pagando?

– Não posso dizer, o cliente não me disse nada, só está me pagando bem, e pelo que ele me paga, a ele não faço perguntas, mas a você… Preciso saber tudo que puder, para ajudá-la.

– E se eu contratasse você para investigar o seu contratante? – pela primeira vez ela esboçou uma risada.

– Eu sei tudo sobre ele, menos o que o leva a me contratar para pegar o seu caso. E como disse, pelo que ele me paga, não faço perguntas.

– Mas você não tem jeito de mercenário. Não parece ser um daqueles rábulas que fazem qualquer coisa por dinheiro.

– E não sou, mesmo. Só estou nessa porque conheço bem o contratante, sou amigo do filho dele e sei muito bem de onde o dinheiro dele vem. Minha área nem é a criminal, sou mais do cível, mas para esta pessoa eu faria, sim, qualquer coisa, e não pelo dinheiro, porque, na real, ele está preocupado com você.

– E eu conheço ele?

– Ele me disse que não.

– Mas então…?

– Marisa, eu não fiz perguntas. E não por medo, foi por confiar nele.

Marisa entendeu que pelo menos naquele momento seu destino era ficar intrigada com ele e com quem o estava pagando, e não disse mais nada. Decidiu ficar quieta naquela hora, mas voltaria ao ataque, mais adiante.

O restaurante ficava dentro de um supermercado. Era um buffet, e Marisa apreciou a comida exposta. Enquanto ela ía ao banheiro, Roberto rapidamente se aproximou de uma mesa em que um rapaz estava sentado próximo a uma janela, fingindo estar distraído. Sentou-se à frente dele e disse:

– Se vai continuar nos seguindo, vou lhe dizer duas coisas: minha cliente é inocente; não saia da nossa cola.

Ergueu-se sem dar tempo de o rapaz dizer nada e voltou ao lugar por ele e Marisa escolhido. Quando ela retornou os dois foram se servir.

De volta à mesa, ela disse:

– Você vem sempre aqui? Me pareceu bastante familiarizado.

– É, eu moro aqui perto.

– Pelo jeito o pessoal gosta. É sempre cheio, assim?

– Parece que sim. Em todas as vezes em que vim sempre vi bastante gente.

– Pelo menos enquanto ninguém achar algum bichinho na comida.

– Já deve ter acontecido. – ele riu.

– Você já viu? – ela parou, olhando-o desconfiada.

– Ainda não.

– Então você não sabe.

– Sei que neste mundo dos restaurantes tudo pode acontecer.

– Acho que você não quer que eu coma.

– Quem levantou a história do bichinho? – ele tornou a rir. – Relaxa, Marisa.

Ela começou a comer.

– Você disse que é cível. – falou, logo em seguida.

– Sim. Na maior parte do tempo.

– Mas conhece aquele delegado. Quer dizer que você atua no Crime.

– Em pequena parte do tempo, sim.

Marisa ficou de novo olhando para ele. Era como se estivesse à espera de que ele dissesse mais alguma coisa, porém, como ele não falava, ela prosseguia.

– Você me deixa cada vez mais curiosa.

– Com o quê? – ele a olhou meio surpreso.

– Com tudo.

– Com tudo o quê, Marisa?

– Com tudo, Roberto. Vamos voltar ao começo. Ao meu começo. Já percebi que você está tranquilo e tem tempo.

– Aham, e eu já percebi que você está tranquila. Ou pelo menos aparenta estar.

Ela estava. Por causa dele.

– Eu estou tranquila. É por isso que agora vou me tornar seu pior pesadelo.

– Será?

– Esteja certo disso, Doutor Roberto. Porque quando o dia começou e a Polícia bateu na minha porta eu fiquei atônita, nervosa e assustada. Não sabia o que estava acontecendo. Não sabia o que estava acontecendo. Depois que me contaram eu fiquei nervosa, assustada e indignada. E depois fiquei furiosa. Não sei quanto tempo eles ficaram me cozinhando naquela sala. Me pareceram horas. Em algum momento alguém iria falar comigo, era o que diziam. E nada.

– Acho que estavam ocupados ouvindo a história dos seus primos.

– Você me viu chegar na delegacia?

– Eu? Estava longe de lá, em casa, acho, quando a Polícia a pegou.

– Quem lhe falou de mim?

Roberto começou a compreender. Ela agora estava tranquila e estava raciocinando.

– Não me venha com aquele papo de o pai do seu amigo. Nenhum dos dois existe.

– Claro que existem.

– E quem lhe falou de mim? De manhã cedo quando você estava em casa e o povo ainda nem sabia o que havia acontecido?

Roberto decidiu revidar na mesma moeda, já que agora estava se divertindo.

– Você quer desistir da minha assistência, eu posso falar com meu cliente.

– Até onde eu sei, sua cliente sou eu. Se não sou, por que está me defendendo?

– Estou fazendo um favor para um amigo.

– De graça? Quem o está pagando? Que não é o pai do seu amigo que não me conhece e não tem nada a ver com o que você está fazendo?

Ele riu de novo.

– Você é boa. – disse.

– Gostou? – ela também riu.

– Adorei.

– Mas eu estou falando sério. Toda essa história é séria. Estou sendo acusada por meus primos de ter participado de alguma maneira do assalto e tenho certeza de que eles devem ter dito ao delegado que eu já fui usuária de drogas.

Roberto agora ficou realmente surpreso.

– Isso é verdade?

– Sim. Já fumei muita maconha.

– E crack? Já experimentou?

– Na, na. Parei antes. Andei perto. Mas não quis arriscar. E hoje em dia estou limpa, não posso nem ouvir falar. Mas tenho certeza de que usaram isso.

– Vou investigar.

– E você não me respondeu.

– Não respondi o quê?

– Como chegou até mim.

Roberto recostou-se um pouco na cadeira. Olhou para ela por instantes, enquanto ela ficou olhando para ele.

– Olha, Marisa, eu…não sei como… lhe dizer isso. Você vai ter que confiar em mim.

– E por que acha que não confio? Estou aqui, almoçando com você como se não tivesse zilhões de coisas com que me preocupar e como se você, também, não tivesse mais nada para fazer. Alguma coisa está acontecendo, eu quero saber o que é e você não facilita nem um pouco. Então não diga que eu não confio em você. Mesmo estando sendo pago para me ajudar, eu sinto que você não confia em mim.

Roberto ficou de novo alguns segundos em silêncio, antes de repetir:

– Você é boa.

 NÃO SEGUE


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  1. picida ribeiro #
    1

    Aaaaahhhh!!! vou esperar a continuação…



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