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Análise, e Daí?

EXORCIZANDO

Supondo que eu fosse ao psicanalista, fazer terapia.

A primeira coisa que imagino é que não poderia deitar no divã. Nunca pensei em mim assim, deitado, falando sobre mim  ou sobre a minha vida. Minha tendência é a de encarar o divã como uma cama disfarçada. Se fosse depois do almoço, então, ou mesmo que direto do trabalho, tenho certeza de que ficaria feliz em poder dar uma cochilada. Apesar de que se o médico ou médica for brasileiro muito provavelmente estará atrasado nas consultas, o cochilo vai acontecer na sala de espera, mesmo.

Significa que quando eu chegar perto do divã vou estar desperto. Não haverá problema em deitar. O problema vai ser ter sobre o que falar.

Apesar do que possa parecer, não sou bom em falar de mim. O psicólogo (analista, ou seja lá que nome tenha) vai ter que fazer trabalho de arqueologia se quiser que eu tenha lembranças da infância, porque sei que há coisas que não vou querer lembrar. Algumas memórias vão precisar de testes de Carbono 14. Em princípio, como sempre, a ideia seria a de descobrir quais dos meus problemas de hoje têm origem em traumas de infância.

Haveria uma questão preliminar, que seria a de descobrir se eu tenho algum problema com alguma coisa. Preliminar para mim, porque para o analista acho que bastaria o meu silêncio para ele já saber que alguma coisa está errada. Depois que isso estivesse estabelecido, eu teria que admitir. Saber que pode haver é uma coisa, admitir que efetivamente há é outra. Num primeiro momento eu talvez conseguisse admitir que tenho imensa dificuldade para exprimir sentimentos.

Isso é uma outra coisa que aparentemente não existe em mim, mas o problema há. É fato concreto.

Acho que na primeira sessão com o analista já ficaria de bom tamanho identificar pelo menos uma dificuldade. As causas ficariam para outros encontros, mas em princípio sei quais são. Como são coisas do passado e o passado não pode ser mudado, meu foco seria o de estabelecer em que medida esta dificuldade prejudica meus relacionamentos e o que posso fazer para resolver isso.

Sem ter nenhuma prática, presumo que a orientação seria tentar uma solução para a questão tratando-o na origem, ou seja, com os pais, porque todos os problemas que a gente apresenta na vida adulta começam na infância, e quem teve uma infância regular, como meus irmãos e eu (com os pais vivendo juntos), só pode ter sofrido influência deles.

Do ponto de vista do psicólogo-analista a orientação está correta, mas do meu é complicado, porque a coisa vai cair naquele caso em que quem fez não lembra porque faz muito tempo e quem sofreu nunca esqueceu apesar do tempo que faz.

Amanhã ou depois serão os meus filhos que poderão estar no divã tentando driblar o sono e procurando respostas para algum problema que os esteja afetando na vida adulta, vítimas que foram de uma infância irregular, provavelmente sendo orientados a procurar na origem, sendo que a origem fui eu.


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