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Cap. 10 Pt.2

 – Não. Achei razoável.      Elise sorriu.

      – Claro, maninho, que por um determinado ângulo, as despesas deveriam sair, mesmo, por conta dele. Dele e da garota. Mas ele pagou tudo sozinho. Sem piscar. Isso foi que eu achei estranho.

      Augusto sacudiu os ombros.

      – Tudo me parece muito simples. – disse. – Ele não mora por aqui, deve estar em férias. Então, ou ele torrou todo o dinheiro das férias e vai embora mais cedo, ou ele é rico, ou de família rica.

      Elise ficou em silêncio. Falando em família rica, pensou, estava chegando a hora…

      – Este detalhe a deixou interessada? – brincou Augusto.

      Elise apenas o olhou, mas não disse nada. Sorriu. Após alguns segundos, murmurou:

      – Se Marcelo estivesse conosco, talvez Geraldo não estivesse tão machucado.

      – Sim, talvez.

      Elise percebeu que havia certa ironia no tom usado pelo irmão.

      – Por que você disse isso assim, desse jeito?

      Augusto olhou para a irmã, com ar de dúvida.

      – Não creio que estivesse pensando apenas no bem-estar de Geraldo.

      Elise suspirou.

      – Não pense que a estou provocando, agora. – continuou Augusto. – Isso tem a ver com a conversa de ontem à noite. Você está chegando em um momento difícil de sua vida. Uma encruzilhada, para ser mais exato.

      Elise permaneceu calada, agora tomada por uma forte emoção. Augusto compreendia. E não era, afinal, o desligado que parecia.

      – Você ficou bastante aflita quando começaram a bater no rapaz.

      – Aflita demais para o seu gosto?

      – Diante daquela circunstância, estranhamente aflita, eu diria. Se não conhecesse as dúvidas que a assaltam, eu pensaria que estava errada. Mas não acho que esteja.

      – Acha que não, mesmo?

      – É uma chance que você está se dando de questionar sua vida. De mudar, talvez. Entenda, Elise, você está numa posição delicada. Ou você vai em frente e de repente se arrepende, ou você pára e de repente se arrepende.

      – Você vê tudo claramente, não é?

      – Mais ou menos. Gosto que isso esteja acontecendo agora, porque agora é o momento certo. Mas não vou me meter. Nem me peça palpites.

      – Eu fico pensando no que os pais vão pensar. No que a família de Marcelo pensaria de mim.

      – É a sua vida, Elise. Uma decisão muito, muito pessoal. A família dele não tem nada com isso. Ninguém, a não ser vocês dois, estão envolvidos.

      – Você consegue ser assim, tão… independente?

      – Você me conhece. Acha que não sou?

      Elise ficou novamente em silêncio, refletindo. Seu irmão estava muito certo. Ela tinha nas mãos uma questão muito íntima, pessoal demais para levar em consideração a opinião dos outros a seu respeito. Interessava a sua própria opinião, e só.

      – Olhe, eles estão voltando. – disse-lhe Augusto.

      Eram o louro e a garota. O rapaz vinha com um curativo no supercilho e outro no queixo.

      – Como foi? – perguntou Augusto.

      – Levei pontos no queixo, como esperado. – o rapaz sorriu, dentro das limitações do curativo. Olhou para Elise, por instantes.

      A jovem piscou os olhos, desviando o olhar para a outra moça, rapidamente. Baixou-o, depois.

      – Bem, eu estou curioso. – falou Augusto. – Gostaria de saber o que houve.

      – Meu nome é Ernesto. Esta é… Marjorie, não é?

      – É, sim. – a jovem sorriu.

      – Agora… o que está acontecendo, nem eu mesmo sei. – falou Ernesto.

      Os olhares se voltaram para Marjorie, e ela hesitou.

      – Eu… estou preocupada com o outro rapaz. – disse ela. – Eles estão demorando tanto… Que confusão eu fui causar!

      – Marjorie, o que causou a briga? – insistiu Elise, a fim de não permitir que a jovem mudasse de assunto, ou evitasse explicar os fatos que geraram a confusão na sorveteria.

      Marjorie tornou a hesitar. Por fim, disse:

      – É, claro que lhes devo a explicação. Eu sou detetive particular. Pelo que me aconteceu hoje, eu até deveria dizer aprendiz de.

      – E quem são aqueles sujeitos? – insistiu Elise.

      – Detetive particular? – Augusto surpreendeu-se.

      Marjorie olhou para ambos com certa surpresa, também.

      – Detetive, sim. – falou, com indignação. – Algum problema?

      – Calma, Marjorie. – disse Ernesto. – Ele só ficou surpreso… Estamos todos muito nervosos…

      Ela baixou a cabeça, refletindo por instantes. Contou a eles o objetivo de sua investigação, os fatos que tinham levado ao incidente na sorveteria, arrematando:

      – Acho que íam me violentar e depois me matariam.

      Houve um instante de perplexidade. Marjorie tremia. Elise tentou acalmá-la.

       – Acho que não entrariam com você num local cheio de pessoas, mostrando bem seus rostos, se pretendessem liquidá-la. – falou.

      – Estes aí não têm nada perder. – disse ela. – São foragidos, já têm assassinatos no currículo…

      – Meu Deus… – murmurou Ernesto, pela primeira vez dando-se efetiva conta do risco que tinha corrido para ajudar aquela estranha.

      – Você é aqui da praia? – indagou-lhe Augusto.

      – Não. Sou de Porto Alegre. Meu carro ainda está parado perto da sorveteria.

      – O meu também. – disse Marjorie. – As chaves estão comigo. – ela enfiou uma mão num bolso da calça e as mostrou.

      Geraldo e Virgínia voltaram naquele instante. O rapaz estava com um curativo na boca e o peito enfaixado. Caminhava devagar e Augusto foi ampará-lo, para que Virgínia pudesse descansar.

      – E então, como ele está? – indagou Ernesto, entre preocupado com Geraldo e emocionado por falar com Sua Loura.

      – Tem uma costela fraturada. – Virgínia respondeu suspirando demoradamente, aliviada. – Nada que um pouco de repouso não possa curar…

      – Puxa, que bom. – Marjorie sorriu.

      – Vou até o caixa pagar a taxa de atendimento. – falou Virgínia.

      Ernesto arrancou-lhe a nota da mão e juntou-a à que correspondia ao seu próprio atendimento.

      – Deixe isso comigo. – falou.

      – De jeito nenhum. – protestou Virgínia, com energia.

      Ernesto olhou-a com serenidade e disse:

      – Você é muito mandona, sabia?

      – E quem você pensa que é, para me dizer isso? 

      – Eu sou… alguém que teve muita sorte, hoje, por ter sido ajudado por vocês. Agora, por favor, me deixe demonstrar gratidão. Não vai lhe doer nada.

 

 


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