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Cap. 14 Pt. 3

      Virgínia sorriu. O apelido de família só era usado em situações extremas.

      – Não estou, não. Eu chego lá. O que me levou a procurar meus pais, e vou comentar isso porque tenho muita confiança em você, foi a minha sensação, um sentimento de que meu coração está preparado para amar até mesmo uma pessoa que já me causou aflições… e isso inclui… a minha irmã…

      – Helena… – Elise foi invadida por uma sucessão de arrepios, calafrios, ela não sabia explicar, mas estava de queixo caído com a conversa de sua prima. Muitas coisas passaram por sua cabeça, naquele momento, a principal delas, preservar Helena de toda e qualquer agressão moral e psicológica. Por isso, decidiu deixar sua prima falar, e decidiu não dizer nada sobre Helena, agiria como se não soubesse nada sobre ela. – Você se julga capaz de… vir a… amar Helena?

      Virgínia movimentou as mãos num gesto significativo, abrindo-as e separando-as.

      – Este é um assunto muito delicado, Elise. Geraldo não gosta de falar sobre isso. Ele está cego pelo ódio que sente contra os pais e a irmã. Impede-o de pensar de maneira racional, de analisar as coisas friamente. Já meu modo de pensar é bem outro.

      Elise não cessava de se surpreender e emocionar com sua prima. Virgínia mostrava-se além das suas expectativas. À medida que a conversa fluía, sentia-se cada vez mais tranqüila e ao mesmo tempo excitada.

      – Você… tem alguma idéia do que vai fazer?

      – Eu tomei uma decisão, minha prima. É algo que vai influir definitivamente no meu relacionamento com Geraldo. Não devia ser assim, mas parece que não haverá outro jeito. Tenho certeza de que vou magoá-lo, mas estou resolvida a tentar descobrir onde Helena está e tornar a vê-la.

      Elise quase explodiu. Se Virgínia continuasse assim, ela acabaria desmaiando de emoção. Aquela era uma notícia que não esperava receber de nenhum de seus primos.

      – E por que… ? Por quê, Virgínia?

      Virgínia ergueu as sobrancelhas, com ar de dúvida.

      – Bom… porque eu pensei muito sobre o que aconteceu conosco. Com os três, eu quero dizer. Helena também era uma criança. Ela também sentia medo. Eu me lembro de ter visto muitas vezes seus olhinhos apavorados. Eu me lembro disso.

      – Lembra, mesmo? Ou criou essa imagem dentro da sua cabeça, para convencer-se de que ela não era assim tão má? Depois que começou a pensar no assunto, isso pode ter acontecido, não é?

      – Pode. Reconheço, pode, sim. Mas vou tirar essa dúvida. Quando eu finalmente descobrir como ela está, como vive, vou ao encontro dela e então conversaremos. Não a vejo há doze anos. Ela sumiu, de repente. Estou curiosa sobre isso, também.

      Elise estava perplexa.

      – Escute, Virgínia, você não tem medo de se machucar, ao final disso?

      Virgínia sorriu.

      – Não tenho medo do desconhecido, Elise. Helena é uma incógnita para mim.

      – Mas… Virgínia… ela nunca mais os procurou, jamais tentou entrar em contato com vocês… ou conosco… – era uma pequena mentira, mas Elise não queria dar margem a suspeitas.

      – E daí, Elise? Isso não quer dizer que ela seja uma pessoa ruim. Pode estar envergonhada, até hoje. Pode estar com medo de nós. Pode ter decidido viver sua vida deixando o passado para trás. Pode ser um montão de coisas.

      – E você não tem medo?

      – Não tenho. Elise, pense comigo. Digamos, suponhamos por um instante, que ela fosse realmente ruim. Se eu tivesse criado uma imagem, isso não mudaria o que ela é hoje, certo? Se eu a encontrasse, e ela fosse, mesmo ruim, eu deveria esquecê-la para sempre.

      – E se não criou a tal imagem? Se for verdade que ela sentia medo?

      – Então isso seria maravilhoso. Veja bem, Elise: o pai e a mãe a ensinaram a ser má. Não por obrigação, mas por medo. Afinal de contas, ela foi severamente punida, por dar a Geraldo e a mim um pouco de liberdade. Disso eu me lembro muito bem. É isso que me faz pensar que ela sentia medo. Ela era apenas uma criança, nada me tira isso da cabeça, e um dia, de repente, ela fugiu de casa. Para onde? Com quem? Se alguém se interessou por ela, foi porque tinha seus atrativos. Casou-se? Tem filhos? Com sinceridade, desejo que ela esteja bem e seja feliz. Que seja uma mulher independente, sem medo das reações dos pais. Ela não lhes deve nada. Ao contrário. Tiraram-lhe a inocência. Depois de todos estes anos, desejo que ela tenha se reencontrado espiritualmente, como pessoa, como mulher. Como bem sabemos, muitas coisas mudam em muito menos tempo.

      – Incrível. – murmurou Elise. – Você não tem feridas? 

      – Devo ter. Mas também tenho algumas cicatrizes. E passo por cima de quaisquer ressentimentos para ter alguma notícia sobre Helena. Gostaria mesmo de vê-la.

      Elise fez um trejeito de dúvida, com as sobrancelhas.

      – Eu acho isso um bocado arriscado, Virgínia. O que Geraldo pensa a respeito?

      – Geraldo… diz que espera que ela esteja morta… mas eu acho que isso é só da boca para fora… ele deve é estar morto de medo… 

      – Vai ser uma guerra…

      – O problema é dele. Mesmo se for para quebrar a cara, tenho direito de viver a experiência. E se eu reencontrar Helena, e ela for uma boa pessoa, vou querer recuperar os anos de convívio perdidos, mesmo contra a vontade de Geraldo.

      – Ele está radical assim, é?

      – É, está.

      – Você também não está sendo radical, Gina?

      – Eu sei que estou. Mas compreenda, não pretendo que ele também veja Helena. Não farei pressões sobre isso. Mas eu quero reencontrá-la, e o que faço de minha vida é problema meu. Ele não manda em mim e não dependo dele para nada… Nem mesmo para ser feliz. Às favas com as suas objeções!

      – Eu… compreeendo… Acho que Geraldo está errado, mas também o compreendo…

      – Ele me disse que, se eu conseguisse encontrá-la e falasse com ela, tudo bem, não haveria problema, desde que eu não a mencionasse em sua presença.

      – Tipo às escondidas…

      – Por aí…

      – É uma pena que ele pense assim. – Elise baixou a cabeça, entristecida. Sua euforia inicial tinha passado. Fizera um jogo com a prima, fingindo nada saber sobre Helena e escondendo boa parte de sua surpresa. Mas arriscar a integridade moral de Helena e Virgínia, contra a intolerância de Geraldo, estava fora de questão. Seria um crime.

      – E então, Elise…? O que me diz de tudo isso?

      – Você espera, ainda, que eu diga alguma coisa? Estou orgulhosa de você. É uma pessoa maravilhosa, minha prima.

      – Maluca?

      – E se for? Se toda loucura fosse assim… Sente-se mal com o que pretende fazer?

      – Não. Não, mesmo.

      – Então, isso é o que importa. Agora me diga uma coisa…

      – Hum…?

      – Já tem idéia de como espera localizar Helena?

      Virgínia olhou para a prima incisivamente. 


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