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Sobre a Exceção

 TANTO FAZ a REGRA

Pequenas palavras podem escrever grandes textos. Grandes textos podem dizer muitas coisas, assim como as palavras.

Palavras podem dizer qualquer coisa, inclusive o que não é verdade. Podem dizer coisas que parecem verdades. Palavras seduzem quem está preparado para ser seduzido. A maioria das pessoas está. Praticamente todo mundo.

Palavras também podem ser usadas para dizer o lugar-comum, aquilo que as pessoas estão ansiando por ouvir, e que para muitas pessoas é fácil dizer. O lugar-comum é cheio de espaços na vida real. Muitos desses espaços não têm nenhum significado prático ou verdadeiro. O lugar-comum seduz porque pode se materializar na vida real.

Até aí tudo bem, porque em geral se ilude quem quer. Quem não quer se iludir, nem iludir os outros, pode não querer usar o lugar-comum. Não usá-lo é fácil e ao mesmo tempo difícil. É difícil porque mesmo que uma pessoa não queira iludir a si mesmo, há sempre alguém que espera e até mesmo às vezes deseja ser iludida por ele.

O que quase todo mundo faz, então? Satisfaz a expectativa. Usar o lugar-comum é a regra, porque é a reação esperada. O que se pode pensar, então? Uma da coisas que se pode pensar é que toda regra tem exceção. a exceção indica que é possível existir romantismo sem o uso do lugar-comum.

Uma vez que o lugar-comum é ilusório, a pessoa que com ele se ilude (e a própria palavra já o diz) não enxerga que por trás dele podem se esconder verdades indesejáveis, que na maioria das vezes até apresentam sinais, mas não raras vezes esses sinais só são efetivamente percebidos quando já é tarde demais.

Quem mais gosta do lugar-comum? Óbvio: as mulheres.

Já escrevi sobre isso antes: o lugar-comum pode ser representado pelas flores, pelos jantares à luz de velas, entre outros que têm caráter eventual, por não caberem na rotina diária nem de quem só namora, que dirá para quem leva vida de casado.

Passa batido, é desprezado e até mesmo irrelevante para muitas pessoas o fato de que seu companheiro ou companheira sempre pede a sua opinião em momentos de decisão; passa batido o fato de uma pessoa voltar a falar sobre um assunto em que os dois têm opiniões divergentes, a fim de procurar entender melhor a posição do outro e passar a tratá-lo de acordo com aquela posição, embora não mude a sua quando não ficar inteiramente convencido; passa batido o fato de uma pessoa andar pela rua e enxergar numa vitrine uma coisa que acha que vai combinar com a outra (ou que sabe que a outra tem interesse) e lhe dá de presente em qualquer época, não só em datas significativas. Em casos como este todas as datas são significativas.

O mais incrível, a meu juízo, é que muitas vezes a pessoa que não trai e/ou não obriga a outra a dar queixa na Delegacia Especial da Mulher e muito menos obriga a pessoa a se proteger com uma ordem restritiva baseada na lei Maria da Penha pode receber queixas ou até mesmo ser abandonada sob a alegação que de que não suficientemente romântica, porque, apesar de toda a compreensão, companheirismo, confiança, lealdade e sejam lá quais forem suas outras qualidades, pelo que se vê, se lê e se escuta, ainda assim a pessoa pode ter o grande defeito de não fazer uso do lugar-comum.

O caráter contraditório da natureza humana não deveria me surpreender, mas tem coisas que eu acho muito estranhas.

Sobre o grupo de solteiros, do Facebook, no qual entrei, semana passada.

São muitas as expectativas. Todo mundo tem um modelo pronto. Quem não se enquadra está descartado. O modelo pronto é uma armadilha que só enxerga quem está de fora. Quem o cria não vê, não percebe que molda para o outro alguém muito parecido consigo mesmo.

Por isso no começo o que o outro tem de diferente atrai, mas depois de algum tempo é exatamente o que incomoda. O tempo passa e o que se espera é que o outro vá se tornando parecido com o modelo.

E o modelo somos nós.


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